E.T. - o Extraterrestre      
 Imagem: Universal Prime Video      

Há obras que permanecem culturalmente intactas ao longo das décadas, não porque resistem a toda forma de análise, mas porque continuam capazes de dialogar com públicos diferentes em momentos distintos da vida. E.T. – The Extra-Terrestrial (1982) é um desses casos. Assistido na infância, o filme se apresenta como uma narrativa de empatia, alteridade e afeto. Mas, recentemente, resolvi assistir novamente esta obra de Steven Spielberg, e percebi o quanto um repertório técnico e científico mais amplo leva a outras formas de percepção e de reflexão: não estética, não emocional, mas biológica e tecnológica.

O filme é encantador, e permanece exatamente o mesmo. Porém, o que mudou fui eu, o observador, e levando-me a confrontar a representação ficcional de uma espécie alienígena com critérios conhecidos de biologia funcional, cognição simbólica e produção de tecnologia cumulativa. Eu ainda gosto do filme, mas a visão encantadoramente inocente e infantil desapareceu no conhecimento.

Não é irrelevante que esta reflexão surja justamente no período natalino. E.T. – O Extraterrestre foi lançado no Brasil em 25 de dezembro de 1982, como um filme de Natal no sentido mais literal possível: uma obra pensada para ser vista em família, associada à ideia de encontro, acolhimento e encantamento.

À época, eu tinha sete anos de idade, idade em que a ficção científica ainda não é analisada, mas simplesmente absorvida. O filme entrou na memória não como um objeto de cinema ou tecnologia, mas como uma experiência afetiva. Retomá-lo hoje, décadas depois, é revisitar não apenas uma obra, mas um recorte muito específico do imaginário infantil de início dos anos 1980.

   
   

E.T. no Atari 2600

Como curiosidade histórica, vale lembrar que o mesmo filme deu origem a um dos episódios mais conhecidos da história do Atari 2600. O jogo E.T. the Extra-Terrestrial tornou-se um símbolo dos limites e problemas técnicos, industriais e mercadológicos da época, reforçando, em outro domínio, a distância entre expectativa cultural e realidade tecnológica.

🔹 Desenvolvimento extremamente apressado

A Atari obteve a licença do filme em julho de 1982 com a meta de lançar o jogo a tempo do Natal daquele ano. Isso deixou apenas cinco semanas para toda a produção: projeto, programação, testes e depuração, um tempo drasticamente inferior ao ciclo típico de desenvolvimento da época, que era de seis a nove meses. Essa pressa foi um dos fatores principais para um produto final pobre, cheio de falhas e de mecânicas frustrantes. 

🔹 Jogabilidade falha e confusa

As principais queixas técnicas do ponto de vista do jogador foram:

  • Mapa confuso, sem orientação clara ou senso de progresso;
  • E.T. cai frequentemente em poços (pits) sem indicação visual suficiente, e escapar torna-se repetitivo e tedioso;
  • Objetivos pouco claros, exigindo que o jogador aprenda regras não intuitivas;
  • Falta de um sistema de inventário ou interface de usuário que facilitasse a jogabilidade. 

Esses elementos resultaram em uma experiência de jogo frustrante para a maioria dos consumidores.

🔹 Superprodução e excesso de expectativas

Atari acreditava que E.T. seria um título imperdível (“system seller”), capaz de vender tão bem quanto o jogo de Pac-Man da própria Atari (que havia sido um sucesso, ainda que criticado). A empresa produziu milhões de cartuchos muito acima da demanda real do mercado, criando um enorme excedente de estoque quando as vendas não corresponderam às expectativas.

🔹 Perda de confiança do consumidor

Quando o jogo foi lançado, muitas unidades foram vendidas inicialmente, mas uma grande quantidade foi devolvida por clientes insatisfeitos. A confiabilidade da marca e a confiança dos consumidores foram fortemente abaladas, contribuindo para a crise de mercado do início dos anos 1980.

🔹 Enterro de cartuchos e mito cultural

A Atari acabou enterrando uma grande quantidade de cartuchos não vendidos em um aterro em Alamogordo, Novo México, em 1983. Por décadas isso foi visto como “lenda urbana”, mas escavações modernas confirmaram a presença de centenas (embora não milhões) de jogos enterrados, incluindo cópias de E.T.. Isso se transformou em um ícone cultural da história dos videogames e do crash do mercado.

🔹 Relação com o crash dos videogames de 1983

O fracasso comercial e de reputação de E.T. passou a ser associado ao crash da indústria de videogames de 1983, um período em que muitas empresas faliram ou saíram do mercado por causa da saturação de jogos de baixa qualidade, excedente de estoque e perda de interesse do público. Este período permitiu, posteriormente, a entrada e consolidação de empresas japonesas como Nintendo e Sega no mercado ocidental. 

🔹 Complexidade técnica do hardware:

O Atari 2600 tinha capacidades extremamente limitadas (tela, cores e memória muito restritas), o que exigia um design de software muito cuidadoso para que jogos fossem minimamente satisfatórios. A pressa no desenvolvimento agravou ainda mais essa limitação. 

🔹 Percepção histórica:

Embora E.T. seja hoje frequentemente citado como “o pior jogo já feito”, análises posteriores indicam que essa reputação é em parte resultado das circunstâncias mercadológicas e do mito cultural acumulado sobre ele, e não apenas da jogabilidade em si.

O filme como artefato cultural de seu tempo

Lançado em 1982, E.T. – The Extra-Terrestrial, dirigido por Steven Spielberg, insere-se em um momento muito específico da história do cinema e da cultura tecnológica ocidental. Trata-se de um período marcado pela consolidação do blockbuster moderno e pela expansão do cinema familiar. Diferentemente de obras anteriores do próprio diretor, como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), nas quais a inteligência alienígena é tratada de forma coletiva, institucional e tecnologicamente enigmática, E.T. adota deliberadamente uma abordagem íntima, doméstica e emocional. Essa escolha narrativa desloca o foco da especulação tecnológica para a empatia e para a experiência subjetiva da alteridade, resultando em uma representação alienígena menos preocupada com plausibilidade biológica ou eficiência funcional e mais comprometida com a identificação afetiva do espectador.

Do ponto de vista filmológico, E.T. é uma obra de produção relativamente modesta quando comparada a outros títulos de ficção científica contemporâneos, como Star Wars (1977) ou Close Encounters of the Third Kind (1977). Seu impacto não decorreu de inovação técnica espetacular, mas de uma construção narrativa centrada na emoção, na empatia e na perspectiva infantil. A câmera frequentemente se posiciona à altura das crianças, a trilha sonora de John Williams reforça o tom afetivo, e a criatura alienígena é deliberadamente desenhada para parecer vulnerável, estranha e não ameaçadora.

A história é simples e amplamente conhecida: um ser extraterrestre é acidentalmente deixado para trás durante uma breve visita científica à Terra, estabelece vínculo com uma criança humana e busca, ao longo do filme, meios de retornar ao seu planeta de origem enquanto foge da intervenção adulta e institucional. Essa simplicidade narrativa não é um defeito, mas uma escolha consciente, que permite ao filme funcionar como uma fábula moderna sobre amizade, perda e alteridade.

À época de seu lançamento, E.T. foi recebido de forma extremamente positiva pela crítica e pelo público. Tornou-se um fenômeno cultural imediato, alcançando enorme sucesso comercial e consolidando-se rapidamente como um dos filmes mais emblemáticos da década. As avaliações contemporâneas raramente problematizavam aspectos científicos ou técnicos da obra. O foco estava quase exclusivamente em sua capacidade de emocionar, especialmente o público infantil e familiar.

Sob um olhar museológico, E.T. pode ser compreendido como um documento cultural representativo de como a ficção científica popular dos anos 1980 concebia o contato extraterrestre: não como um problema científico ou tecnológico, mas como um evento humano, íntimo e emocional. A tecnologia no filme (naves, comunicação interestelar, viagem entre estrelas) não é peça importante no filme, por isso aparece como pano de fundo funcional, não como objeto de explicação ou reflexão interna. Essa característica é fundamental para a leitura técnica do filme.

E.T.          

E.T. tem uma biologia improvável e incompatível

Do ponto de vista morfológico, E.T. apresenta um conjunto de características bastante claras e consistentes ao longo do filme:

  • Estrutura corporal baixa e desproporcional
  • Cabeça volumosa em relação ao tronco
  • Polegar opositor desproporcional
  • Marcha instável, com baixo rendimento energético

Esses elementos, observados de forma objetiva, indicam baixa eficiência biomecânica, especialmente para tarefas que exijam manipulação precisa, repetitiva e prolongada de objetos. Em biologia comparada, espécies capazes de desenvolver tecnologia complexa invariavelmente apresentam alguma combinação de motricidade fina altamente refinada, capacidade de aplicar força controlada, estabilidade postural prolongada e coordenação visuomotora precisa. Nada disso é claramente demonstrado pelo personagem.

Importante frisar: o filme demonstra que a aparência e comportamento do E.T. não se trata de fragilidade física ou condição patológica. Trata-se de ineficiência funcional. O corpo apresentado é plenamente viável como organismo vivo, mas pouco compatível com atividades técnicas intensivas que se espera de um ser tecnologicamente avançado.

A forma de locomoção de E.T. sugere um organismo adaptado a um ambiente bastante distinto do terrestre. A marcha lenta, o equilíbrio instável e a postura pouco eficiente indicam, possivelmente, um contexto de baixa gravidade, ausência de predadores e pouca necessidade de deslocamento prolongado. Isso tudo não é, em si, um problema narrativo. Contudo, quando associado à ideia de uma espécie tecnologicamente avançada, levanta uma questão objetiva: espécies produtoras de tecnologia precisam resolver problemas de estabilidade, repetição e eficiência energética, independentemente do ambiente original. A tecnologia não surge apenas da cognição, mas da interação contínua entre corpo, problemas ambientais e ferramentas.

E.T. se assusta com uma lanterna      
Se assustar com uma lanterna não é algo que se espera de um ser tecnologicamente avançado      

No entanto, o ponto mais sensível da análise reside na cognição demonstrada, pois E.T. apresenta um vocabulário extremamente restrito, limitado, seu aprendizado e comunicação se baseia somente na repetição e imitação. Além disso, demonstra dificuldade clara com abstrações simbólicas, além de apresentar respostas fortemente emocionais e associativas.

Mesmo considerando barreiras linguísticas e culturais, os padrões cognitivos observados são pré-simbólicos ou, no máximo, concretos. Em nenhuma cena se observa algo como planejamento técnico de longo prazo, manipulação conceitual de sistemas invisíveis e menos ainda o uso de linguagem formal ou estrutural: o E.T. nem tenta "ensinar" seu amigo Elliot a se comunicar com ele, se limitando a imitar e seguir o garoto, de uma forma absolutamente passiva, totalmente infantil.

Alguns defensores mais entusiasmados da obra citam a construção improvisada do chamado ‘telefone’ como evidência de inteligência elevada. Porém, tecnicamente, ela demonstra apenas capacidade associativa, reconhecimento de padrões e uso oportunista de materiais disponíveis. Infelizmente, essas mesmas habilidades estão amplamente documentadas em diversas espécies terrestres: corvídeos, primatas superiores e cetáceos que, apesar disso, não desenvolvem tecnologia cumulativa.

Tecnologia cumulativa e o que ela exige

O verdadeiro divisor entre uso de ferramentas e tecnologia avançada não é a inteligência isolada, mas a capacidade de produzir conhecimento transmissível, acumular melhorias intergeracionais, desenvolver sistemas abstratos e criar e manter infraestruturas técnicas complexas. Até onde se conhece na biologia terrestre, isso exige uma linguagem simbólica complexa, além de planejamento abstrato, estruturas sociais orientadas à transmissão técnica (capacidade de ensinar) e biologia corporal adequadas à manipulação dos objetos e materiais. Nada disso é observável de forma direta na espécie apresentada no filme.

A cena final e a homogeneidade da espécie

Existe uma leva de fãs um pouco mais "científicos" que sugerem E.T. não como um ser avançado, mas sim como um ser de segunda linha na sociedade E.T., algo como uma subespécie ou um tipo de animal de estimação. Porém a cena final, em que outro indivíduo da mesma espécie surge para receber E.T., é particularmente relevante. Ela estabelece, de forma inequívoca, que a morfologia apresentada não é excepcional, o padrão de locomoção é típico da espécie, além de mostrar que não há indício visual de castas funcionalmente distintas

Com isso, cai a hipótese de que E.T. seja um indivíduo atípico, dependente ou não representativo. O filme sugere, de maneira clara, uma espécie morfologicamente homogênea, o que torna a dissociação entre biologia observável e tecnologia atribuída uma característica estrutural da representação.

Ficção científica e mentalidade tecnológica de época

Esse descompasso não deve ser interpretado como erro, mas como reflexo de uma mentalidade tecnológica específica do final dos anos 1970 e início dos anos 1980. À época, a tecnologia era percebida como “caixa-preta”, a engenharia era invisível ao público e "computação" ainda não fazia parte do repertório cotidiano. Isso demonstra como as obras estão intimamente ligadas ao seu próprio tempo: em 1982 a ficção científica popular não se sentia obrigada a explicar processos técnicos. A tecnologia simplesmente existia. Esse contexto cultural explica por que a coerência biológica não era uma exigência narrativa relevante.

Bem, como percebido, não é minha intenção, com este artigo, revisar, corrigir e nem julgar E.T.. É um filme maravilhoso, de grande sucesso na época, e fez parte da minha infância. Só demonstrei como agora, depois de "velho", minha percepção sobre o filme mudou radicalmente, talvez pelo acúmulo de conhecimento, talvez só por estar velho mesmo 😀.

O filme continua sendo uma obra relevante, sensível e culturalmente importante. A leitura infantil permanece válida. A leitura adulta não a substitui, apenas acrescenta uma camada adicional de observação. Revisitar essas obras com repertório ampliado não diminui seu valor: ao contrário, permite compreendê-las com maior profundidade histórica, técnica e humana.

 E.T. Lua          

 

📽️ Vamos assistir de novo?

À medida que fechamos esta reflexão, a magia de E.T. – O Extraterrestre permanece tão viva quanto há quatro décadas.
Para quem cresceu com as luzes da tela refletidas nos olhos e o coração acelerado com a bicicleta voando contra o céu crepuscular, ou mesmo só para quem a conhece apenas por histórias, hoje o filme está acessível novamente em plataformas de streaming e vídeo sob demanda.

No Brasil, E.T. pode ser encontrado em serviços de streaming:

  • Netflix (disponível em catálogo no país), onde pode ser assistido por assinantes da plataforma.
  • Apple TV (para compra ou aluguel digital).
  • Prime Video (aluguel ou compra digital).

Essas opções permitem retornar ao universo onde um garoto de dez anos fez amizade com um viajante das estrelas, e onde a frase “E.T. telefone casa” passou a ser um símbolo de nostalgia transcultural.

Reassistir E.T. hoje, depois de tantas teorias, compreensões e instrumentos técnicos acumulados, é como revisitar uma memória afetiva com um olhar mais pleno: não para buscar falhas, mas para reconhecer como aquela história simples continuou a nos acompanhar e até mesmo se encantar com o imaginário, mesmo se você é um velho que ache tudo tecnologicamente um absurdo! 😁

Que esta nova visão não diminua o encanto, mas o acrecente. Porque revisitar um clássico não é voltar ao passado, é viajar de volta a um lugar que já nos mudou, e perceber que ele ainda nos transforma.

Bom filme!

Comments fornecido por CComment

Para citar este artigo em ABNT:
SILVA FILHO, J. E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia. OldBits: a mágica dos 8 bits. São Paulo, 2025. Disponível em: https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia. Acesso em: 08 jan. 2026.
Para citar este artigo em APA:
Silva Filho, J. (2025, dez 17) E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia. OldBits: a mágica dos 8 bits. Recuperado em janeiro 08, 2026, de https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia.
Para citar este artigo em ISO:
SILVA FILHO, J., 2025. E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia. [online]. [visto em 08 de janeiro de 2026]. Disponível em: https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia.
Para citar este artigo em MLA:
Silva Filho, J. "E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia." OldBits: a mágica dos 8 bits. Web. 08 jan, 2026. <https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia>.
Para citar este artigo em Chicago (Notas e Bibliografia):
SILVA FILHO, J. "E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia." OldBits: a mágica dos 8 bits, São Paulo, 2025. Disponível em https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia (acessado em 08 janeiro 2026).
Para citar este artigo em Harvard:
SILVA FILHO, J. (2025) E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia. OldBits: a mágica dos 8 bits, São Paulo. Disponível em: https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia (Acesso em: 08 janeiro 2026).
Para criar o arquivo BibTeX:
@article{125,
    author = {Silva Filho, J,
    title = {E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia,
    year = {2025,
    journal = {OldBits: a mágica dos 8 bits},
    url = {https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia}
}
Para criar o arquivo RIS:
TY - JOUR
AU - SILVA FILHO, J
TI - E.T.: uma visão moderna da Tecnologia e da Biologia
PY - 2025
JO - OldBits: a mágica dos 8 bits
UR - https://www.oldbits.com.br/historia/125-e-t-uma-visao-moderna-da-tecnologia-e-da-biologia
ER -